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Marlon Brando in A Streetcar Named Desire (1951)
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Questões do Coração - Emily Giffin
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"Mãe, me diz se meus olhos são tão complicados assim. Se quando eu os fecho parece que morro e quando os abro especula-se que eu voltei da mansão dos mortos. Por que se assustam tanto? Por que não conseguem suportá-los por mais de alguns instantes? Eu não tenho medo quando os olho nas fotografias, nos espelhos, nos reflexos. Será que eu já me acostumei com a ilusão de ótica? Eu não tenho tempo essa noite, nem na de amanhã, mãe. Não se preocupa se não ouvir o portão rangendo ou eu correndo do cachorro. Seu sono é pesado, mas minha insônia também. A senhora apelou no dia que o Bal se matou e implorou que eu não fizesse o mesmo. Os meus dedos ao te abraçar foram como se passassem em lâminas. Seu choro me cortava, mãe, de um jeito que não dava pra estancar. Foi isso? Eu vim pra curar suas feridas abertas? O corte que fizeram para que eu nascesse? Eu sei que do jeito normal, comum, de natureza seca, eu não viria. Eu sou teimosa de nascença e resolvi viver desde que descobri que tinha outro grudado a mim, apertando meus pés que não tinham ainda apontado ou meu coração que batia fraco. Eu me sinto como se estivesse no seu útero sem entender o que me alimenta, o que me move, o que me apalpa do outro lado me desejando amor. Não brinca com minha psicopatia dissimulada. Eu danço ao som de Mamonas desde o berço, ontem ouvi a história de Santa Ágda e quis ter a coragem de recusar o pedido de um rei. Sei que a senhora não quer que eu mude que odeia meu quarto bagunçado e a estante de livros que permanecem ali, mesmo que eu enrole todo dia para os ler. Entendo que ache minha solidão estranha, mas eu acho estranho e confuso todos os amores sozinhos. Unos. Não quero isso pra mim, mãe. Eu não quero ficar aqui pela eternidade porque, veja bem, é tempo demais e eu já não sei lidar com o pouco que tenho. Eu não gosto mesmo de vestidos longos, de músicas de um refrão só e de não poder ver o sol chegando porque sempre durmo na melhor parte. Eu não gosto mesmo da senhora não me respondendo quando pergunto algo e de atropelar meus silêncios para corresponder uma dúvida sua. Eu não gosto de confessar os segredos dos outros, se os meus estão guardados, lacrados, fechados. Não me abre, mãe, que a autópsia vai dar overdose de saudade. Meu coração falece por meio dia e depois brota quando as estrelas chegam. Eu preciso da sombra que abraça a luz."

- o peso de uma cruz:  (via amordejulhos)

(via outraviolet)